“Sem luxo, mas com amor”: mulher abriga pessoas em situação de rua em sua própria casa no RN

Quem passa pela casa amarela e verde no bairro de Cidade Alta, em Natal, não imagina o tanto de história que ela carrega. O imóvel, no centro histórico da capital potiguar, é o lar de mais de 20 pessoas em situação de rua, que encontram acolhimento ali. A matéria é do jornalista Valcidney Soares, da Ecoa Uol.

A responsável pela iniciativa é Maria Aparecida Cândido de Lima, a Cida. Aos 52 anos, ela sempre gostou de ajudar pessoas e já recolhia e distribuía doações de alimentos ao lado do marido. Mas sentia que faltava algo. “Eu tinha o sonho de fazer alguma coisa a mais. Sempre quis arranjar uma casa para eles poderem tomar banho, morar e dormir”, conta.

Há 5 meses, ela decidiu realizar esse sonho. Saiu da casa antiga em que morava e alugou outra muito maior, com 10 quartos e 3 banheiros, para poder comportar mais pessoas. “É uma casa simples. Não tem luxo, mas tem amor”, garante.

“Pra gente, o passado não interessa”

Além de Cida, seu marido e a filha, cerca de 20 pessoas dormem diariamente no lar coletivo. Há ainda outra dezena que não fixa moradia. O espaço, além de abrigo, é lugar de escuta – sem julgamentos. “Pra gente, o passado não interessa. Interessa o presente”, sentencia ela.

Se para muita gente a ideia de receber estranhos em casa é motivo de receio, Cida é enfática ao afirmar que esse sentimento nunca existiu. “Quase todo mundo me faz essa pergunta [sobre o medo], mas no dia a dia a gente vai conhecendo e sabendo quem é quem. E aqui eles me respeitam, me chamam de ‘mãe Cida'”, diz.

Porém, com tantas pessoas no mesmo espaço, é preciso haver regras. É proibido fumar e beber lá dentro, e o horário máximo de entrada é por volta das 22h.

Para Cida, uma das dificuldades recentes é a alta no preço dos alimentos. Para alimentar tantas pessoas é preciso que a despensa esteja sempre cheia, e para isso o casal conta com a ajuda de doações e parcerias com outros projetos sociais. “É difícil querer ajudar alguém e na hora H não ter. Antes eu tinha meu dinheiro, mas estou desempregada, e aqui só quem aguenta [os custos] é meu esposo”, afirma.

A estrela do Enem

Mário Batista da Cruz Júnior é um sujeito magro, alto, com bigode grande e cavanhaque exuberante. Aos 39 anos, virou capa de jornal em 2017, quando foi aprovado em 2º lugar no curso de Administração da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) mesmo estando em situação de rua. Hoje, depois de ter deixado o curso, é um dos abrigados por Cida Lima.

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